Acordou com a luz do sol passando pela cortina, seu corpo ainda ardia por conta do calor que passara no dia anterior, e por um segundo não sabia onde estava, coçou os olhos e então lembrou da noite anterior, sua cama estava bagunçada e o cheiro do que havia feito pairava no ar, era uma mistura de cigarro com perfume barato.
Olhou para o chão e percebeu que havia latinhas de cerveja por todo canto, ignorou a bagunça e respirou fundo, pegou um cigarro acendeu-o e, com uma longa tragada, pensou na pessoa que avistou andando na orla da praia, lembrou como o sol brincava com sua pele, como era estranho lembrar de alguém que nem conhecia.
Sabia que jamais veria tal sujeito novamente, mas conseguia imaginar a vida com aquele ser, uma utopia que sua mente criava quando se sentia sozinho e desamparado.
Seu cigarro estava pela metade e ele ainda pensava na imagem especular daquela personagem de filme, mas por uma fração de segundo, um pensamento que nem pensou e que costumava fazer com alguma frequência, que era ignorar verdades dolorosas a seu respeito, algo que ele aprendera a velar com o passar dos anos, uma sensação de que não podia se relacionar com o resto do mundo por conta de sua rotina - rotina forçada por achar que não merece ninguém - era por deveras complicada e cheia de altos e baixos, suas noites de puro sexo eram seu prazer efêmero, fingindo uma completude que não sabia se realmente existia ou se era tesão, apenas tinha certeza de que, pelo menos naquele momento era o que desejava, mesmo sabendo que nada restaria no dia seguinte, apenas seu cigarro e o cheiro de perfume barato.
Cartas líquidas.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Qual é o limite de relacionamentos fracassados para
aprendermos a nos dar valor?
Nossa vida é permeada pelos mais diversos relacionamentos.
Temos relacionamentos familiares, amigos, namoros, encontros que nos marcam
profundamente. Mas a partir de qual momento você passa de “eu” para nós? E
quando esse “nós” acaba, como voltar a ser “eu” de novo? Precisamos nos
recuperar, passar por um momento de solidão, tentar catar os restos da nossa
individualidade para tentar reconstruir um novo eu.
Relacionamentos podem ser incríveis e durar uma vida toda,
como também podem ser incríveis e acabar em pouco tempo. O problema é, quando
você doa sua vida para se tornar um casal, quando esse relacionamento acaba,
você precisa usar essa energia pra reconstruir seu novo eu.
Mas não temos força.
Parece que tudo ruiu, que você é um lixo, que ninguém nunca
irá te amar. Aos poucos você começa a se arrumar para sair, encontrar com
amigos, apreciar as estrelas.
Aos poucos você passa a ser feliz com sua companhia.
Aos poucos você para de se julgar, de achar que tudo acabou
por sua causa. Você passa a perceber que aconteceu o que tinha que acontecer,
ninguém é mais culpado que o outro. E você então tem uma nova chance, um novo
caminho a seguir.
Relacionamentos só são menos complicados que saber a
tempestade que você é. Carregamos críticas, emoções, afetos, humores.
Carregamos o mundo no interior da gente. E, por carregar o mundo, temos a capacidade
de, mais uma vez, ir em busca de alguém especial.
Ou, ir em busca do seu amor por você mesmo.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Palimpsesto
Nunca pensei que voltaria a me sentir assim novamente. A última vez havia sido tão dolorosa.
A última vez havia me rendido pesadelos por meses.
A última vez fez com que eu acreditasse que nunca mais seria feliz.
Ou que nunca mais iria conseguir me amar novamente.
Ou ser especial pra mim.
A medida que os pesadelos foram desaparecendo, que o seu rosto foi evaporando das minhas lembranças, eu comecei a perceber que posso me amar independentemente dos outros me desejarem ou não.
Ser feliz é um status difícil de ser alcançado, se fosse fácil a felicidade seria banal e não plena. O difícil da vida é não ligar sua felicidade as expectativas que cria quando se apaixona.
Mas a vida é um palimpsesto, nós vamos sempre escrevendo acima do que já estava escrito antes. Nossas histórias são permeadas pelas experiências e isso não tem como apagar, por mais que tentemos.
Assim como o palimpsesto.
domingo, 19 de junho de 2016
"Não é fácil recuperar"
Todos nós somos moldados socialmente, nossa identidade é baseada na construção social. Existem algumas características que você adquire facilmente, mas existem outras que não são tão fáceis de obter (exatamente porque já construiu outras no lugar), por exemplo, se você construiu uma característica de ser bastante tímide, como construir o seu oposto? Demanda tempo, força de vontade, esforço...
Hoje gostaria de abordar a confiança, em todos os seus aspectos. Confiança em desenvolver algo bom, em ser alguém que acredita que o que faz irá dar certo. As vezes você conseguiu desenvolver essa confiança em um relacionamento, sentindo-se uma pessoa segura com o outro, mas de repente você perde isso se a pessoa cortar os laços com você.
Então como ter confiança pra entrar em outros relacionamentos? O fantasma do término irá rondar todas as suas relações, você vai passar a ter medo de investir em alguém, afinal de contas, qual o sentido em se esforçar pra ter um relacionamento feliz e apaixonado, se em algum momento vocês irão terminar?
Esse é o mal estar da pós-modernidade, acabou o investimento da libido em paixões avassaladoras, ninguém está disposto a sofrer por amor, as pessoas cansaram de remendar o coração tantas e tantas vezes, desistiram de tentar encontrar o famigerado "amor pra toda a vida". Quem é a melhor amiga de todas as pessoas? A solidão! Ela ronda todos os corpos, em algum momento ela irá aparecer ao seu lado, ela é como uma faca de dois gumes, ou você aprende a lidar com seu lado positivo, ou então irá cair em seu lado sombrio, desesperador e angustiante. O que você escolhe?
Afinal de contas, se ninguém está disposto a investir n'outro, não faz sentido tentar esperar alguém importante. A solidão é, realmente, nossa melhor amiga na Modernidade Tardia.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
"A vida continua, mesmo quando parece não haver saída."
Existem momentos do viver que fazem com que passemos a refletir sobre onde estamos errando. Não parece difícil, mas enfrentar seus defeitos nessa jornada é insuportavelmente doloroso. Quantas relações não tiveram o fim desejado, não é mesmo? Quantas vezes nos apaixonamos e recebemos nada em troca.
É até desesperador, trocamos afetos com alguém que julgamos ter reciprocidade, uma pessoa que faz você sentir-se especial, as vezes esse é o problema, sentir-se único. Nossa sociedade preza pelo individual, pelo único, o diferente, mais vale um relógio que apenas você tem do que duas pessoas se realizando em um beijo.
O amor tornou-se mercadoria, assim como todo o resto. O prazer agora relaciona-se intimamente com a obtenção de produtos, o gozo desenfreado é o novo desejo, compre mais, viva mais, tenha o máximo de coisas que conseguir obter, se não puder ter tudo, parcele em 36 vezes no cartão.
"Me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar" - Caetano Veloso
sexta-feira, 17 de julho de 2015
"Você não tá feliz, ninguém tá."
Sabe quando você procura um príncipe encantado pra toda sua vida e descobre que os contos de fadas são uma grande mentira e não existe amor eterno? Não? Tem certeza que não sabe?
As pessoas passam por diversos relacionamentos ao longo da vida, é comum se apaixonar no primeiro beijo, achar que aquela pessoa vai te ligar no dia seguinte, que ela vai te completar e te suprir. Esse é o típico pensamento de uma mente monogâmica, vou falar hoje apenas das relações monogâmicas, a poligamia merece um texto exclusivo e maravilhoso, lindo, perfeito só pra ela.
A beleza da vida é saber que nada é pra sempre, nada estagna. Você muda e tudo muda ao seu redor. Aceitar que mudamos é essencial para passarmos a aceitar que aquela pessoa especial hoje, amanhã será um completo estranho pra você, ou então alguém que te causa feridas sempre que vê algo relacionado a ela.
"Uma vez me entreguei pra uma pessoa, acreditei ser capaz de mudar ela, achei que eu era especial. Fazíamos tudo juntos, minha agenda era moldada para poder ver ele todos os fins de semana. Depois de três meses saindo, ele me conta que nunca se apaixonou por mim, que não era recíproco, achou que o sentimento floresceria nele, mas nada aconteceu. O que aconteceu comigo? Dias e dias de pesadelo, um sentimento de completa fragilidade, dói lembrar disso, dói saber que uma pessoa que eu considerei tão especial pra mim, não passou de alguém que apenas me iludiu." - Relatos de R.
E todos frustram-se eternamente, sempre aprendem algo e desaprendem algo equivalente, a vida é feita de trocas. Preencher o vazio que invade a alma parece cada vez mais algo impossível, você não está plenamente satisfeito com nada, você sempre quer mais, sempre deseja mais, sempre precisa ou finge que precisa de mais.
Mas tio Ronan, como você tem coragem de dizer isso? Eu estou plenamente feliz agora que consegui entrar na faculdade, agora que comprei meu celular, agora que estou namorando, agora que passei no concurso que eu queria... agora que... agora que... agora que...
Não, você não está realizado, sabe por quê? Porque tudo isso vai te enjoar e você vai abandonar. Sua vida não passa de um eterno círculo vicioso, ficando tão denso e concentrado que é difícil perceber que realmente estamos presos.
Você compra algo, fica feliz, usa, enjoa e frustra quando vê outra coisa que quer. Você adquire aquela nova coisa, fica feliz, usa, enjoa e frustra quando vê outra coisa que quer. Você adquire aquela outra coisa, fica feliz, usa, enjoa e frustra quando vê outra coisa que quer...
Você não sai do vício.
Você é o seu vício.
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